A dimensão biológica do desejo sexual
A dimensão biológica do desejo sexual

A dimensão biológica do desejo sexual

Uma reflexão de Nuno Monteiro Pereira

É indiscutível a existência de um modelo biológico da sexualidade, se bem que modulado por um modelo “construtivista”, resultante de fatores psicológicos, sociais e culturais. O modelo biológico assenta essencialmente no sistema nervoso e no sistema endócrino. O primeiro determina uma dupla ação: 1) a ação elétrica de cerca de dez mil milhões de neurónios, dez biliões de ligações sinápticas interneuronais; 2) a ação química de algumas dezenas de neurotransmissores, cuja ação se faz na contiguidade neuronal e sináptica. O segundo, o sistema endócrino, determina a ação de hormonas, substâncias químicas que são lançadas no sistema sanguíneo para atuarem, seletiva e exclusivamente, em órgãos ou estruturas onde existam recetores específicos para cada uma das hormonas. A ação neuroendócrina assim resultante é essencialmente um sistema de fluxo de informação que, na sexualidade, gera a prontidão e a execução consumatória sexual. Ou seja, a ação neuroendócrina é a base fisiológica da resposta sexual (Pereira, 2014).

Desejo sexual

O desejo sexual é considerado a primeira e indispensável etapa para uma adequada resposta sexual. Entenda-se que desejo sexual é diferente de amor, muito mais raro, mais exigente e biologica e psicologicamente mais complexo. Pode haver desejo sexual sem haver amor. Mais difícil, talvez, será haver amor sem desejo sexual.

Não é fácil definir desejo sexual, mas, muito simplesmente, pode dizer-se que é o impulso que faz despertar para a experiência sexual.

Neurofisiologia do desejo sexual

Do ponto de vista fisiológico o desejo sexual é desencadeado pela estimulação de um subsistema específico, o sistema límbico, composto pelo tálamo, hipotálamo, amígdala, hipocampo e vários outros centros cerebrais, e que é mediado por estímulos bioelétricos e substâncias bioquímicas, nomeadamente a dopamina, a ocitocina, a serotonina e a testosterona. Alguma destas substâncias podem atuar quer como neurotransmissores quer como hormonas. Existem ainda as feromonas, cuja ação permanece algo misteriosa.

Os centros cerebrais decisivos para o desejo sexual são: 1) o tálamo, que avalia o sistema de recompensa e é modulado por julgamentos morais e sentimentos de culpa; 2) o hipotálamo, que coordena a libertação de ocitocina e determina a capacidade de imaginar, ou recriar, experiências sexuais; 3) a amígdala, que faz a avaliação emocional dos estímulos apetitivos visuais, nomeadamente faciais e corporais (Martins, 2014).

A dopamina é um neurotransmissor conhecido como “a hormona do desejo”, com forte influencia sobre a atração, cognição, recompensa e adição sexuais. A sua libertação é sobretudo influenciada pela quantidade de testosterona em circulação e, com menos impacto, pela ocitocina e pela vasopressina.

A ocitocina é também um neurotransmissor por vezes definido como o responsável pela satisfação sexual. É produzida pelo núcleo paraventricular hipotalâmico, que o liberta diretamente no cérebro, onde vai exercer a sua ação comportamental. Uma parte é libertada na circulação sanguínea através da neurohipófise, com efeitos na excitação genital e no trabalho de parto. A sua ação no desejo sexual é sobretudo pela sua ação sobre a confiança em relação a terceiros, determinando afetos positivos, vinculação, humor e felicidade (Caldwell, 2002).

A serotonina tem um papel geral oposto, inibitório. Tendo sobretudo um propósito regulador da dopamina, pode ser a causa de desejo hipoativo, para além de dificuldades orgásmicas e, nos homens, de ejaculação retardada.

O desejo sexual é também influenciado pelas hormonas sexuais masculinas, os androgénios, sobretudo pela testosterona. Nos homens esta hormona é segregada pelos testículos e nas mulheres pelo ovário. Existe ainda uma pequena produção derivada das endorfinas, moléculas semelhantes à morfina, que determinam sensação de bem-estar, prazer e euforia. As hormonas sexuais femininas, os estrogénios, não têm qualquer efeito significativo sobre o desejo sexual, embora nos homens tenham uma ação anti-androgénica, reduzindo o desejo sexual.

No desejo sexual do homem há uma maior ativação do tálamo, hipotálamo e amígdala. No sexo feminino as ativações são diferentes, variando ao longo da vida, tendo como separador bem definido a menopausa. Nas mulheres pré-menopáusicas existe sobretudo uma maior ativação do núcleo caudato e no putamen, enquanto nas pós-menopáusicas há maior ativação no corpo caloso e da circunvolução frontal superior. Esta diferença na resposta no sexo feminino reflete sobretudo a ação no cérebro feminino das hormonas sexuais, tanto estrogénios como androgénios (Hyde, 2005).

A ação das feromonas no desejo sexual humano é ainda objeto de controvérsia científica. As feromonas propiciam a interação sexual nos insetos e, a um nível mais elevado do desenvolvimento filogenético, em alguns répteis e mamíferos. São substâncias químicas segregadas por glândulas habitualmente situadas na pele, no ânus ou na boca, de constituição semelhante às hormonas esteroides. Libertadas para o ambiente, são muito ativas em algumas espécies animais, servindo para comunicação sexual intra-espécie. Tem de haver um órgão emissor e um recetor específico. Existem várias feromonas, próprias de cada sexo. A androstenona tem características para integrar a classe de uma putativa feromona masculina, sendo nos humanos facilmente detetada pela mulher e desencadeando, nas fêmeas de vários mamíferos, uma reação fisiológica de resposta. Nos animais, a estrutura recetora é o órgão vomeronasal, uma estrutura olfativa que na espécie humana tem a placa olfativa como equivalente filogenético. Na progressão da escala evolutiva das espécies, a atividade sexual dependente da atividade feromenal vai-se atenuando, mas sem desaparecer completamente. Na espécie humana, sabe-se que a placa olfativa se liga ao hipotálamo, onde vai estimular a amígdala e o núcleo paraventricular, desencadeando a libertação de ocitocina. Estimula também as gonadotrofinas hipofisárias a induzir a produção de ACTH, levando a suprarrenal a libertar esteróides sexuais (Mora, 1996).

O desejo sexual pressupõe a existência de pensamentos e fantasias sexuais. É um estado mental, criado por estímulos externos ou internos, que induz a necessidade ou procura de alguém para partilhar a atividade sexual. Sem estímulo, não haverá desejo. A resposta sexual a estímulos externos depende, pois, das reações emocionais por eles provocadas (Both, Everaerd & Laan, 2007). Depois do input informativo sensorial erógeno ser transmitida à ínsula, que controla a resposta nervosa autónoma, o mesmo passa à amígdala, que o torna consciente e intrinsecamente sexual, e ao hipocampo, onde se depara a memória de coisas passadas, aspeto facilitador ou inibitório da resposta sexual. Sinais favoráveis, particularmente se relacionados com uma potencial recompensa sexual, mesmo quando pouco conscientes, como acontece por exemplo com estímulos eróticos subliminares, ativam o tálamo e o córtex cingulado. Particularmente se houver níveis elevados de dopamina.

O desejo sexual hipoativo nos homens mais novos deve-se quase sempre a fatores psicológicos, ou então a abuso de drogas ou medicamentos. As causas psicopatológicas são geralmente os transtornos de stresse, a depressão e a ansiedade

Desejo sexual na prática clínica

Podemos dizer que são duas as causas do desejo sexual hipoativo: psicológicas ou orgânicas. Ou um misto das duas.

Para muitos homens é um problema sério sentirem diminuição do desejo sexual. Particularmente quando ainda são jovens, ou de meia-idade, e não é esperado terem esse tipo de problema. De facto, muitos julgam que o envelhecimento leva inevitavelmente à perda do interesse sexual. Embora muitos homens com mais de 60 anos sintam uma progressiva diminuição do desejo sexual, isso nem sempre acontece. O desejo sexual hipoativo nos homens mais novos deve-se quase sempre a fatores psicológicos, ou então a abuso de drogas ou medicamentos.

As causas psicopatológicas são geralmente os transtornos de stresse, a depressão e a ansiedade. Causas ligadas à valorização de aspectos negativos da sexualidade por parte do indivíduo: o medo da intimidade; o medo de um compromisso sério; a medo de estar a praticar atos pecaminosos; o receio de alguma represália pelo ato sexual. Muitas das causas assentam também no facto do parceiro sexual ser insatisfatório, da atividade sexual ser insatisfatória, da constante preocupação em que a vida nos coloca, no excesso de preocupação em ter um bom desempenho sexual (Serrano, 2014). O tratamento psicológico passa por ultrapassar os pensamentos negativos, por reduzir a ansiedade, por utilizar técnicas de relaxamento.

As causas orgânicas são variadas, como por exemplo: a diminuição dos níveis de testosterona; as doenças crónicas (hipotiroidismo, insuficiência renal crónica, cirrose hepática, etc.); alguns medicamentos e drogas consumidos (álcool, tranquilizantes, anti-hipertensivos, antidepressivos, cocaína, etc.). A medicina atual possui tratamentos eficazes para muitas dessas situações, nomeadamente quando o problema é o défice de testosterona.

E as mulheres? Tal como nos homens, são duas as causas do desejo sexual hipoativo feminino: orgânicas ou psicológicas. Ou um misto dessas duas.

As causas orgânicas são variadas e em geral semelhantes às dos homens: diminuição dos níveis de testosterona, doenças crónicas, medicamentos e drogas. Têm particular importância o stress, a ansiedade e a depressão. E os fatores hormonais específicos, como o ciclo ovárico e o período pré e pós-menopáusico.

As causas psicológicas são também semelhantes às dos homens: medo da intimidade, medo de compromisso sério, parceiro sexual insatisfatório, atividade sexual insatisfatória, preocupação com a vida, experiências sexuais anteriores, expectativas sexuais, crenças religiosas e culturais, etc.

Uma questão clássica é interessante: as mulheres sentem menos desejo sexual do que os homens? A duvida baseia-se num mito de desigualdade de género. Na verdade, a intensidade do desejo sexual é, ou pode ser, semelhante nos homens e nas mulheres. Os mecanismos neurofisiológicos são bastante semelhantes. Contudo, é indiscutível existirem diferenças: na maioria dos homens, o desejo é quase omnipresente, sendo facilmente desencadeado desde que haja um adequado estimulo erótico. A ativação do tálamo, hipotálamo e amígdala é fácil e rápida, se existir esse estimulo. Havendo desejo, a resposta excitatória genital é também rápida, com surgimento da ereção peniana.

Na generalidade das mulheres, as coisas não se passam assim. As mulheres podem consentir ter relações sexuais sem sentir qualquer desejo. Ou seja, não cumprem o pressuposto contido na definição que neste texto assumimos como desejo sexual: o impulso que faz despertar para a experiência sexual. E acontecer que, depois de iniciado o ato sexual penetrativo, surja a fase de excitação, representada pela lubrificação vaginal e pela ereção clitoriana, sem que nunca verdadeiramente surja desejo sexual. Ou o desejo sexual surgir no final, quando o homem já ejaculou e perdeu a ereção. Tudo isso, independentemente de haver, ou não, orgasmo. Tudo isso, independentemente de haver, ou não, satisfação sexual. A resposta sexual da mulher é, de facto, muito diversa de mulher para mulher e de circunstância para circunstância. A excitação sexual masculina é muito genital. Pelo contrário, a excitação feminina, tal como o desejo, tem mais a ver com a atração sexual, a segurança, a fantasia, a disponibilidade, o bem-estar e o afeto (Serrano, 2014). Esta última premissa é particularmente interessante: enquanto os homens são capazes de separar o sexo do afeto, existem muitas mulheres que o não conseguem ou só conseguem se estiverem presentes uma ou mais das outras premissas referidas.

Isso coincide com a opinião de alguns neurocientistas (Fisher et. al, 2002) que sugerem existir no cérebro feminino três sistemas de motivação dedicados ao acasalamento: desejo sexual, atração e afeto. O sistema do desejo sexual, caracterizado por uma necessidade de gratificação sexual, estará associado aos androgénios. O sistema de atração estará associado a elevados níveis de dopamina, com diminuição dos níveis de serotonina. O sistema do afeto determina sentimentos de bem-estar, segurança e união emocional e estará sobretudo associado à ocitocina. Sendo uma teoria bastante prática, para não dizer simplista, a sua base fisiopatológica parece parcialmente sustentada nos estudos neurofisiológicos que explicitámos no inicio deste texto. E, de algum modo, torna mais fácil entender os complexos mecanismos do desejo sexual feminino, explicando também porque é que o desejo sexual hipoativo é a mais frequente das disfunções sexuais da mulher.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BOTH, S.; Everaerd, W. & Laan, E., (2007). Desire Emerges from Excitement. A Psychophysiology Perspective on Sexual Motivation. In: Janssen, E. (Ed). The Psychophysiology of Sex. Bloomington: Indiana University Press.

CALDWELL, J., (2002). A sexual arousability model involving steroid effects at the plasma membrane. Neuroscience and Biobehavior Review; 26: 13-19.

FISHER H, Aron A, Mashek D, Li H, Brown L. (2002). Defining the brain Systen of Lust, Romantic Attraction and Attachment. Arch Sex Behav. 31 (5): 413 – 419.

HYDE, J., (2005). Biological Substrate of Human Sexuality. Washington DC: American Psychological Association.

MARTINS, A.S., (2014). Neurobiologia da sexualidade. In: Pereira NM (coord). Sexologia Médica. Lisboa: Lidel; 159-176.

MORA, O., (1996). Feromonas y conducta sexual. In Llusiá, J. & Tresguerres J. (Ed.). Hormonas, instintos y emociones. Madrid: Editorial Complutense SA.

PEREIRA, N.M., (2014). Fisiologia da resposta sexual masculina. In: Pereira NM (coord). Sexologia Médica. Lisboa: Lidel; 235-248.

SERRANO, F., (2014). Anatomia e fisiologia da resposta sexual masculina. In: Pereira NM (coord). Sexologia Médica. Lisboa: Lidel; 351-362.